Sany Pitbull na Folha de SP

April 18, 2008

finalmente um veículo da grande imprensa [fora o G1] abriu os olhos pra carreira legal em clubes que um dos melhores DJs de funk carioca tá fazendo no exterior. colamos tudo aqui porque está no site da FSP só pra assinantes.

Funk viaja e leva o rock na bagagem

Batizado pelo DJ e produtor alemão Daniel Haaksman como “pós-baile funk”, nova vertente percorre clubes europeus

O DJ carioca Sany Pitbull é o nome central dessa cena, considerada mais “experimental” por Hermano Vianna

Laur Laanemaa - 28.mar.08

O DJ carioca Sany Pitbull em set em clube de Tallinn, na Estônia, no fim de março, onde misturou tamborzão com White Stripes, Justice, Eurythmics e Yes

BRUNA BITTENCOURT
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Os samples de White Stripes, Justice, Eurythmics e até Yes poderiam confundir os desavisados na pista do clube de Tallinn (Estônia), onde o DJ Sany Pitbull tocou no fim de março. Mas a batida do tamborzão e as interferências que ele fazia com seu MPC (um sampler eletrônico) esclareciam: era um set de funk carioca, pontuado por referências estrangeiras ao gênero.
Sem a companhia nem os refrãos de MCs, recorrendo a ousadas colagens sonoras, dialogando com gêneros como o rock e o pop, Sany vem alargando os limites do funk carioca, ao lado de DJs como Edgar e Sandrinho, criando uma nova vertente para o gênero, batizada como pós-baile funk, que tem na Europa o seu público.
“Eles partiram da tradição instrumental do baile funk, a montagem, que é formatada pelo medley [o encadeamento de várias canções], sem um MC. Mas deram um passo adiante, usando uma colcha de retalhos de influências para criar sua versão abstrata do funk”, diz à Folha o DJ e produtor alemão Daniel Haaksman, que lançou em 2004 a primeira coletânea de funk carioca fora do Brasil, “Rio Baile Funk - Favela Booty Beats”, e deu nome ao gênero lá fora (baile funk).

continua a seguir


“O funk que toca no baile e que faz sucesso são canções que têm melodia e refrão”, diz o antropólogo Hermano Vianna, autor de “O Mundo Funk Carioca”. “E existe essa outra vertente mais experimental [pós-baile funk]. São cenas complementares.”
Para Haaksman, trata-se de um tipo de funk que não é feito para tocar nos bailes do Rio, mas para uma audiência global. O termo pós-baile funk, criado por ele, representa, portanto, um passo do funk carioca em direção ao que se faz lá fora.
“Eu pensei neste termo como uma analogia ao “pós-rock”, no qual os músicos utilizam ritmos, melodias e samples que não pertencem à tradição do rock. É uma desconstrução do gênero”, explica.
O jornalista Silvio Essinger, autor de “Batidão: Uma História do Funk”, não vê um grande ineditismo no pós-baile funk, mas um “cross over” mais acentuado. “Para mim é funk. Não tem essa de “pós” nem “pré”. As pessoas vão se apropriando do gênero, que está em permanente mutação”, diz. “O que a gente conhecia como funk em 1995 é completamente diferente do que toca hoje nos bailes. Em 1994, você não tinha o tamborzão, as bases rítmicas eram importadas. Hoje há até híbridos com o trance, mas que não são absorvidos imediatamente pela favela.”

Radical
“O Sany é a coisa mais importante que está acontecendo na arte eletrônica no Brasil hoje”, enfatiza Hermano. “É um tratamento sonoro muito radical o que ele faz com os sons.”
A partir da informação de que não tocaria em clubes voltados para a comunidade brasileira, em sua primeira turnê européia, em 2006, Sany achou que seria bom adaptar o funk aos ouvidos europeus.
“Se eu levar só a batida do funk e coisas da música brasileira, as pessoas não vão entender. Mas, quando pego uma guitarra do Dire Straits e começo a fazer as coisas na hora [programações com o MPC, nas quais o DJ interage com outras faixas], é diferente”, diz o DJ à Folha.
Em março, Sany iniciou sua terceira turnê européia na pista da Fabric (importante clube londrino, que lança compilações mixadas por DJs como o chileno Ricardo Villalobos e a alemã Ellen Allien) e ainda passou pela França, Suíça, Holanda, Suécia, Dinamarca, Fin-lândia e Estônia. No mesmo mês, ganhou um perfil na importante revista de música americana “XLR8R”. Na próxima semana volta à Europa. Toca em Portugal e na Holanda.
“A música do Sany é a que tem mais apelo lá fora. Ele tem uma cultura musical vasta e é provavelmente o melhor dessa geração, também pelo seu trabalho com o MPC”, diz Essinger. Hermano chama a atenção para as interferências que os DJs de funk fazem ao vivo com o sampler, como uma característica única do gênero, além de constante no pós-baile funk.
“Mas tem uma galera vindo com força, como o Sandrinho e o Amazing Clay, que está fazendo híbridos de batidão com teclados de trance, que aos poucos estão sendo aceitos até no baile”, diz Essinger.
Sandrinho faz uma aproximação do funk com o baltimore club [gênero para as pistas que mescla house e hip hop]. Começou a excursionar pela Europa em 2004, como DJ de Mr. Catra. No ano seguinte, já fazia apresentações solo -em 2007, chegou a tocar em Macau. Edgar embarca neste mês para a Europa em uma turnê que terminará em junho.
À parte as turnês européias, o trio se apresenta com regularidade no Rio, em comunidades ou em casas noturnas, tocando também a vertente mais tradicional do funk.

Vinil do funk
Depois do lançamento de “The Rio Baile Funk”, que vendeu 25 mil cópias, Haaksman lançou a série “Funk Masters” para divulgar o trabalho dos produtores, “as pessoas por trás dos MCs”. Seus volumes foram dedicados a Sandrinho, Sany, Edgar, Amazing Clay e Grandmaster Raphael. “Cada um deles tem seu próprio estilo, mas todos têm um largo horizonte. Eles têm viajado e entrado em contato com vário estilos de música eletrônica, o que se reflete em sua música.”

PÓS-BAILE FUNK PODE SER OUVIDO NA NET
Sem datas de discotecagem em SP nos próximos dias, é possível ouvir os DJs nos endereços www.myspace.com/sanypitbull, www.myspace.com/sandrinhodjrio, www.myspace.com/djedgarjr, além de faixas do selo Man Recordings no www.myspace.com/manrecordings.


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